Mitologia lomwé-O fenómeno Chupa-Sangue

A Zambézia é um espaço repleto de assuntos místicos desde a história da origem do seu povo, de suas crenças e do seu reflexo no presente.

Temos a sensação que a mitologia lomwe remonta desde os tempos imemoriais, muito antes da sua miscigenação com os povos migrantes de língua banto. Atestam esta constatação hipotética, os dezoito alfabetos do elomwe, sendo o elomwe actual, reminiscência de uma língua milenar morta.

Indivíduos que praticam a incorporação falam em uma língua sibilante denominada localmente por missikissiki, o idioma clássico de comunicação com os espíritos.

Ao que parece, geneticamente, se trata de um povo muito fértil. A diáspora lomwe surgiu do monte Namuli, por causa disso, o que provocou a expansão dos alomwe para vastas regiões da África Austral e oriental. Reza a mitologia, que ancestrais daquele povo, receberam orientação de Kahova (Deus) para separar os primitivos, através de mahimo (linhagens), com o intuito de aprimorar a qualidade dos genes. Para o efeito, foram criados grupos humanos com diversas denominações (a milima, a mole, a malowa, a yatxe, a txeletxe, a malowa, a mirassi), etc. Desta forma foi estabelecida rigorosamente a proibição de cruzamentos entre os indivíduos de mesma linhagem, uma proibição que até hoje em dia prevalece.

De acordo com a mitologia local, nos primórdios, ali existiam aparentemente povos interdimensionais chamados a mwakona kirwakavi de estatura pequena, que quando um deles aparecesse repentinamente junto de um indivíduo, perguntava: “Desde onde é que tu me viste? ” O desafortunado que respondesse ”só agora é que estou te vendo”, recebia deste, um bofetão como retaliação pela zombaria relacionada com sua estatura. Este mito e outros, parecem refletir a riqueza dos mitos do presente. Um deles é o de chupa-sangue.

Várias fontes já se referiram sobre o fenômeno. Os chupa-sangue na Zambézia, sobretudo na região onde habitam os alomwe, são denominados anamanula, o que significa chupadores de sangue. No Ocidente receberiam o nome de vampiros. De acordo com este mito, na calada da noite, aparecem com seus instrumentos e recipientes. Com tal equipamento por eles teleguiado, sugam sorrateiramente o sangue das vítimas. Noites inteiras são passadas por comunidades despertas, batendo panelas, palmas e outros instrumentos para afugentarem os chupa-sangue.

No decurso da última vaga de episódios do fenómeno chupa-sangue em 2017, a DW entrevistou André Satchicuata, um clérigo que de forma cautelosa pedia a intervenção rápida do Governo e na altura disse:

“Devem existir pessoas do próprio Governo capazes de fazer frente a este fenómeno e de descobrir do que realmente se trata. Na verdade, não se trata de chupar-sangue no verdadeiro sentido da expressão. Mas há alguma coisa por detrás, que ninguém consegue explicar (…). Por isso, as autoridades deveriam prestar muita atenção ao que o povo está a dizer”.O saudoso Professor Carlos Serra da Universidade Eduardo Mondlane, fez estudos aprimorados sobre este assunto e outros análogos. Dizia ele que “o chupa-sanguismo, o mungóismo e o baramaismo, (…), são fundamentalmente crenças colectivas que devem ser compreendidas no quadro de um parentesco lógico de ruptura, de antecipação e de reajuste sociais(…). São, porém, subjectivamente sentidas como fundadas, quer dizer que elas fazem sentido para os seus actores, são crenças racionais, verdadeiras, úteis, ajustadas e compensatórias”. Desde logo, se trata de comunidades que constroem narrativas com o intuito de criar mecanismos que sirvam de precaução face as invasões estranhas nas suas comunidades, tais sejam forasteiros de toda índole, isto é, todos aqueles que não fazem parte deles e que são potencialmente (akhwiri) ou seja, feiticeiros, entidades que podem causar o mal nas pessoas e produzir desarmonia social.

Na perspectiva esotérica, tais indivíduos são portadores de entidades etéreas que habitam no nosso universo vizinho, os arcontes, criaturas geradas pelo demiurgo mesmo antes da origem da raça humana.

O fenômeno chupa-sangue se terá alastrado para o vizinho Malawi, onde certos sectores intelectuais estudaram o fenómeno. Tal como Carlos Serra o fez, a Associação de Médicos de Malawi e seu Presidente Dr. Amos Salimanda Nyaka defenderam a tese segundo a qual, se tratava de Transtorno de Delinquência Compartilhada e histeria em massa. A senhora Joanne Lu, observadora da ONU advogara fundamentos culturais; as superstições, os mitos e as crenças culturais enraizados nas sociedades rurais pobres e não educadas.

Todos eles fizeram estudos e afirmações cientificamente racionais. Tudo indica que suas análises, aparentemente, terminam onde a Esotérica parece fazer eclodir outro campo do conhecimento, incompatível com uma abordagem meramente científica.

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